Com possíveis mudanças, mulheres terão que planejar mais a pausa na carreira para cuidar dos filhos

Com possíveis mudanças, mulheres terão que planejar mais a pausa na carreira para cuidar dos filhos

A proposta da reforma da previdência entregue ao Congresso Nacional no mês de fevereiro altera o tempo de contribuição para a aposentadoria. Nela, a idade mínima para homens e mulheres subiu para 65 e 62 anos, respectivamente, com uma contribuição mínima de 20 anos. Para conseguir a aposentadoria integral, o tempo de contribuição será de 40 anos. Na atual, o tempo de contribuição é de 30 para mulheres e 35 para homens. Ainda dentro da regra vigente, para a aposentadoria por idade é preciso ter 60 anos, no caso de mulheres, e 65 anos para os homens, mas é exigido um tempo mínimo de contribuição de 15 anos, e não 20 anos, como consta na Reforma encaminhada ao Congresso.

As mudanças atingem com mais ênfase as mulheres, que terão que contribuir, caso a reforma seja aprovada, dez anos a mais em relação a atual lei vigente da Previdência Social. Com isso, o tempo de contribuição que se tem no emprego formal se torna ainda mais valioso, especialmente para aquelas profissionais que optem em interromper a carreira por alguns anos para se dedicar à família.

Diante desse dilema, a parada da carreira exige ainda mais planejamento. “Nesse ponto, as mulheres ainda precisam ficar mais atentas. A maioria ainda não para para ponderar as intercorrências desse momento de pausa e nas medidas necessárias para retomar a carreira. E, agora, mesmo que não seja nos moldes da atual proposta, certamente ela trará algum impacto”, diz a especialista em desenvolvimento humano, Karina Duarte Lopes.

Ela destaca algumas situações que devem ser levadas em consideração antes da decisão de parar a carreira para se dedicar à família. “A primeira é ter uma reserva financeira para evitar surpresas negativas durante o período que ficar longe do mercado de trabalho”, destacou. “Algumas perguntas também devem ser respondidas: quais são os possíveis obstáculos? Vou conseguir superar as primeiras dificuldades?”, completou. “Além disso, algumas surpresas podem surgir no meio do caminho, como o adoecimento ou até o falecimento do marido. Isso deve ser levado em consideração durante o planejamento”, observou.

Para ela, é preciso prever a retomada a carreira profissional. “Se a mulher decide parar por algum tempo, isso deve ser visto como algo momentâneo, até os filhos crescerem. É importante também que a mulher não se desatualize e frequente cursos para que não perca totalmente o ritmo do mercado”, completou.

Karina também revela a importância do marido para a tomada de decisão. Segundo a especialista, o homem deve reconhecer o esforço feito pela mulher no caso dela interromper a carreira. “Querendo ou não, a mulher acaba abrindo mão de algo muito importante, a própria carreira, e muitas vezes isso não é valorizado”, avalia. Porém, a especialista também vê que há uma pressão sobre o homem também. “Ele passa a ser a principal fonte de renda da casa, mas deve valorizar o trabalho da mulher e deve ser valorizado esse serviço não remunerado de educar e formar cidadãos”, completou.

A cirurgiã-dentista Antônia Sueli Pinto, de 48 anos, conhece bem a sobrecarga de conciliar trabalho e família e há seis anos, decidiu dar um tempo na atividade profissional para poder dedicar mais tempo à sua filha, na época com nove anos, e do marido, com graves problemas de saúde. “Eu deixei o consultório por diversos fatores, como lesões em meu punho, cotovelo e ombro, mas o fator decisivo foi quando meu marido adoeceu. Desde então, resolvi me dedicar apenas à família”, disse Sueli, que teve tendinite calcária e viu seu esposo enfrentar uma grave depressão. Fora do mercado há seis anos, Sueli já desistiu de se aposentar pelo INSS. “Vou ter que investir em uma previdência privada. Não acredito que vou alcançar a idade mínima para aposentar da maneira tradicional”, disse.

Filhos mais tarde

Apesar de ainda precisar de aprimorar o planejamento, alguns passos já estão sendo dados pela família. Dados da Estatística do Registro Civil de 2017 divulgados pelo IBGE destacam que os casais estão, cada vez mais, optando por ter filhos após os 30 anos. Dos 2,86 milhões de nascimentos registrados no período analisado, mais de 35% dos casos a mãe tinha mais de 30 anos, muito por conta da busca pela estabilidade no emprego e do planejamento para constituir famílias. Outro número que cresceu foi o de casais que optam em ter apenas um filho. O relatório Situação da População Mundial, do Fundo de População das Nações Unidas (Unpa-ONU) de 2018 destaca que a família brasileira tem uma média de 1,7 filhos, menor que a taxa da América Latina (2) e bem abaixo da década de 1960, quando a média alcançou seis filhos por família.

Fonte: SEGS