Ansiedade pode levar ao endividamento para quem compra para aliviar tensão

Ansiedade pode levar ao endividamento para quem compra para aliviar tensão

Seja para diminuir a angústia, seja por satisfação, muita gente encontra nas compras uma forma de aliviar a tensão. O problema é quando o consumo foge de controle e se transforma em compulsão

Para muitas pessoas, comprar é sinônimo de satisfação e felicidade. Na era da internet, a facilidade de adquirir novos bens é cada vez maior. Mas em que momento fazer compras se torna um problema? O consumo excessivo pode comprometer a vida social e financeira, tanto do gastador quanto da família. O hábito pode chegar a virar doença.
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) aponta que, além dos efeitos da crise, o descontrole financeiro está entre as principais causas da inadimplência no país. Cerca de 12% das pessoas que estão com nome em serviços de proteção ao crédito devem por falta de moderação financeira. Desse total, 14% costumam comprar mais do que o necessário quando estão ansiosos.

Destrutivo

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu último relatório sobre saúde mental, de fevereiro de 2017, mostrou que 9,3% da população brasileira sofre de ansiedade, são mais de 18,6 milhões pessoas. Outros 11,5 milhões convivem com a depressão, hoje, a principal causa de incapacidade em todo o mundo.
Segundo a psicóloga Francisca Hurtado, da Aliança Instituto de Oncologia, todo mundo tem necessidades e, quando não são identificadas, podem se transformar em comportamentos destrutivos, como o vício em compras. “Todos nós possuímos uma carência, normalmente vem da infância e é causada pela falta de afeto e atenção. Elas precisam ser trabalhadas e compreendidas, porque acabam gerando ações negativas”, explica.
A psicóloga esclarece que a ansiedade é necessária à sobrevivência, mas que pode se tornar um distúrbio, com consequências sérias à saúde. “A ansiedade é importante na nossa vida, nos protege do perigo, ajuda em momentos de fuga, mas muitas vezes ela pode fugir do controle e criar fobias específicas ou o transtorno de ansiedade generalizada, quando a pessoa está sempre preocupada demasiadamente com o futuro”, exemplifica Francisca.
“Quando eu percebo que estou no limite, eu tento parar de gastar, mas é agoniante, tenho que ficar me segurando. Não gosto, não consigo, sinto muita necessidade mesmo de comprar.” É assim que o estudante Otávio Queiroz, 23 anos, define o consumo compulsivo gerado pela ansiedade. “Eu gosto da sensação da compra. Tudo fica feliz. Não importa se o dia está ruim, quando eu compro me, sinto bem. A ansiedade também faz com que eu queira estar sempre comprando algo”, conta.
Por causa do transtorno, o brasiliense acabou endividado e agora procura ajuda profissional. “Não consigo fazer um planejamento, sempre gasto o limite máximo. Mas estou fazendo terapia e tem dado resultado. Vou ao parque correr também, tento focar  no estudo. Eu consigo, mas, ao mesmo tempo, eu sinto muita falta de comprar”, desabafa.
Francisca afirma que o caminho para melhorar a saúde mental é buscar ajuda profissional, como a terapia. “A psicoterapia é uma das primeiras coisas a serem feitas, é um trabalho de autoconhecimento. Aos pouquinhos ela vai identificando o que está lhe incomodando e lhe afligindo. Eu costumo dizer que o paciente, quando chega ao consultório, é como alguém que está à deriva no mar, se afogando. Os remédios são como a boia, na qual ele pode se apoiar e voltar a pensar, e a terapia é o meio que ele vai utilizar para chegar a terra firme”, completa.
Para o professor Roberto Bocaccio Piscitelli, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais (CCA) da Universidade de Brasília (UnB), o problema está na falta de educação financeira. “Esse reflexo é de algo que já sabemos. Existe pouca educação financeira no sentido amplo do Brasil, o que deveria ter sido posto nas pessoas desde cedo. Educação que se forma a partir da casa, da estrutura familiar, e que a escola deveria reforçar”, opina.
Roberto aponta que não fazer um planejamento financeiro pode ser uma armadilha. “A pessoa fica sem saber o quanto tem de orçamento, o que terá que pagar no próximo mês e vai gastando. Quando percebe, já está com a corda no pescoço.”
No caso dos compradores compulsivos, o especialista analisa que, para eles, o consumo é uma resposta às próprias angústias e insatisfações, assumindo despesas que sabem que não podem pagar. Apesar da consciência, não se sensibilizam e acabam endividadas.

No azul

Piscitelli assegura que a organização financeira é primordial para sair do vermelho. Para isso, o consumidor precisa colocar tudo na ponta do lápis, todas as despesas, como as contas fixas e as parcelas, além de fazer a previsão de gastos do mês seguinte “Se todos tivessem essa visão, possivelmente não assumiriam novos compromissos que vão se sobrepor aos anteriores.”
Segundo o especialista, outro problema é que as pessoas se preocupam mais em administrar o saldo devedor ou em vez de quitá-lo. “Acaba virando uma bola de neve. Um conselho importante é reunir as dívidas, ver quanto deve e, se possível, buscar um empréstimo com juros menores que cubra as contas e assumir apenas uma dívida que englobe as outras. É mais administrável, com prestações certas, em datas determinadas”, sugere.
Para manter as contas em dia, Roberto aconselha aos consumidores simular poupanças e evitar compras a prazos ou parceladas, mas, caso não seja possível, é melhor dividir os pagamentos em poucos meses. O professor ainda diz que é fundamental pagar os débitos dentro dos prazos e estabelecer o que é prioritário. “As nossas necessidades são infinitas, mas temos prioridades em função do que é mais problemático. É importante, também, estabelecer uma cronologia, por exemplo, só comprar uma coisa quando acabar de pagar outra primeiro. Assim, as pessoas vão mudando os hábitos aos poucos”, finaliza.
Fonte: Correio Braziliense